O Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Americana recebe, entre os dias 6 e 31 de outubro, a exposição “Kintsugi: a beleza das cicatrizes”, que apresenta trabalhos artísticos produzidos por mulheres em tratamento oncológico atendidas pelo UNACON (Centro de Oncologia de Americana). A visitação é gratuita, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, na Av. Brasil, 1293, em Americana (SP).
A mostra integra o Projeto Kintsugi, idealizado e coordenado pela artista Pietra Borges, com o propósito de promover a autovalorização e a resiliência feminina por meio da arte e da partilha de vivências. Inspirada na filosofia e técnica japonesa do kintsugi — que valoriza as cicatrizes ao reparar cerâmicas quebradas com pó de ouro, tornando as marcas parte da beleza da peça — a iniciativa utiliza essa metáfora para refletir sobre as trajetórias de vida e os processos de reconstrução das participantes.
Ao longo do projeto, as mulheres participaram de oficinas de arteterapia, fotografia, técnica kintsugi e criação de lenços com pinturas em aquarela. As obras resultantes dessas vivências artísticas agora compõem a exposição, que busca transformar a dor em expressão estética e a vulnerabilidade em potência criadora.
Conversamos com Pietra Borges, idealizadora e realizadora do Projeto Kintsugi:
Como foi estruturado o processo das oficinas de arteterapia, fotografia e criação dos lenços em aquarela com as participantes?
“O projeto foi pensado como um percurso simbólico dividido em três arcos — Cerâmica e Kintsugi, Lenços em Aquarela e Fotografia de Autorretrato — cada um representando uma etapa do processo de cura e reconexão consigo mesma.
No primeiro arco, trabalhamos com a cerâmica e a filosofia japonesa do Kintsugi, que nos ensina a acolher as cicatrizes e transformá-las em beleza. As participantes reconstruíram peças quebradas, refletindo sobre suas próprias trajetórias e descobrindo força nas imperfeições.
O segundo arco trouxe o universo da aquarela, com a criação dos lenços — peças únicas, nascidas da expressão artística e da delicadeza. Essa etapa teve também uma proposta de economia criativa, incentivando o olhar para o fazer manual como possibilidade de renda e autonomia.
Por fim, o terceiro arco foi dedicado à fotografia de autorretrato, onde exploramos a autoimagem e a autoestima. Cada mulher pôde se ver com novos olhos, ressignificando seu corpo e sua história através da arte e do olhar sensível da câmera.
O processo todo foi construído em diálogo, com muita escuta, acolhimento e troca entre as participantes — porque o verdadeiro Kintsugi acontece dentro, quando nos permitimos reconstruir juntas”
Quais foram os maiores desafios encontrados ao desenvolver atividades artísticas para mulheres em um momento tão delicado de suas vidas?
“Um dos maiores desafios foi a disponibilidade das participantes. Muitas estavam em meio ao tratamento oncológico, enfrentando os efeitos físicos e emocionais desse processo, o que às vezes as impossibilitava de comparecer aos encontros.
Foi necessário acolher esses tempos e ritmos com muita sensibilidade. O projeto precisou ser flexível, entendendo que cada ausência também fazia parte do processo. A arte, nesse contexto, não foi uma cobrança, mas um espaço de respiro e leveza — um lugar onde cada uma podia chegar como estava.
Aprendemos muito sobre o valor da presença, mesmo quando ela é breve. Cada encontro, cada gesto criativo, cada conversa compartilhada foi uma forma de reconstrução e de vida pulsando, mesmo nos dias difíceis.”
Pode compartilhar algum momento marcante vivenciado durante as oficinas que exemplifique a transformação das participantes?
“Durante um dos encontros, tivemos um relato de uma das participantes a qual nos contou que durante o seu tratamento vinha passando por crises de síndrome do pânico, e mesmo nos momentos em que ela se sentia apreensiva, os encontros trouxeram força e coragem para que ela saísse de casa, podendo estar diante de um ambiente acolhedor onde pôde se expressar artisticamente”
Quais são os planos para a continuidade do Projeto Kintsugi após a exposição?
“O Projeto Kintsugi não termina na exposição — ela é, na verdade, um ponto de virada. A mostra é a celebração de tudo o que foi vivido, mas também o início de uma nova etapa.
Nosso desejo é que o Kintsugi continue se expandindo como uma rede de afeto, arte e acolhimento. Estamos articulando novas oficinas e encontros, inclusive com a possibilidade de levar o projeto para outros espaços culturais e grupos de mulheres.
A ideia é que cada etapa deixe rastros — que as participantes possam multiplicar o que viveram, inspirando outras pessoas a olharem para suas próprias cicatrizes com mais amor e coragem.
Também há o desejo de consolidar o Kintsugi como uma metodologia de arte e cuidado, unindo arteterapia, criação e expressão. Porque o mais bonito desse processo é perceber que a beleza das cicatrizes não se encerra numa obra ou numa fotografia — ela segue viva em cada mulher que participou, e em cada pessoa tocada por essa experiência.”
Qual mensagem você gostaria que o público levasse ao visitar a exposição “Kintsugi: a beleza das cicatrizes”?
“Gostaria que cada pessoa saísse da exposição com o coração tocado pela ideia de que a beleza não está na perfeição, mas na coragem de se reconstruir. Que cada cicatriz — física, emocional ou simbólica — pode ser um traço de força, uma história de superação e amor-próprio.
O Kintsugi nos ensina que aquilo que foi quebrado não precisa ser escondido. Pelo contrário: pode ser revelado, valorizado, transformado em arte. Assim como o ouro preenche as rachaduras na cerâmica, a arte e o afeto podem preencher as fissuras da alma.
Mais do que uma exposição, esse é um convite à empatia e ao olhar sensível. Que o público possa reconhecer, nas histórias das mulheres retratadas, um reflexo de si mesmo — e levar consigo a certeza de que há beleza em continuar, mesmo depois das quedas.”


Essa exposição e o Projeto Kintsugi refletem uma visão poderosa da arte como caminho de cura, expressão e fortalecimento, trazendo para o MAC de Americana uma mostra única e transformadora.
A visitação segue aberta gratuitamente até o final de outubro. Vale a pena viver essa experiência de beleza e força.